sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O NATAL QUE EU QUERIA

Eu queria passar este natal com as mães indígenas da ATINI, festejando ao redor do fogo de lenha. Iriámos assar tambaqui e bolo de milho na folha de bananeira. As famílias kamaiurá trariam sal de aguapé com pimenta jiquitaia. As suruwahá trariam mingau de pupunha fermentada e cachos de muratinga bem vermelhinha. Teríamos também beiju com castanha do Pará e o Suzuki prepararia um suco de guaraná natural à moda sateré-mawé.
 
A fogueira seria grande, bem no meio do terreiro, com os banquinhos de toco de pau espalhados em volta.

Iríamos nos divertir com as gargalhadas da criançada brincando, umas subindo nas árvores, outras atirando gravetos ao fogo. Os menores estariam mamando, ou embalados em suas redinhas atadas nas mangueiras ao redor. O som de diversas línguas iria se misturar com o crepitar da lenha no fogo e com o barulho do vento frio soprando na folhagem.

Nossa conversa mais uma vez iria se voltar para nossas crianças. Pela enésima vez elas iriam contar como salvaram seus bebês, ou iriam explicar porque fugiram da aldeia. Iriam lamentar mais uma vez as crianças que viram morrer, que não puderam salvar. Uma delas se lembraria dos anos que teve que manter sua filha escondida no escuro, afastadas dos olhos da comunidade. Hakani, sentada perto de mim e se metendo na conversa, iria acrescentar sorrindo a mesma coisa que ela me diz todos os dias: “Mamãe, que bom que eu sou gente!”.




Depois seria minha vez de falar. Eu iria respirar fundo e contar sobre uma outra mãe sofredora. Uma que tinha engravidado antes do casamento, e que tinha sofrindo com os olhares atravessados da comunidade. Uma moça nova, bonita, muito séria. Para surpresa de todos, o jovem a quem ela tinha sido prometida decidiu se casar com ela assim mesmo e assumir a criança. Apesar disso os líderes da comunidade não queriam que aquele bebê vivesse. A medida que a barriga crescia o medo e a vergonha da moça só faziam aumentar. O que aconteceria com seu bebê? Será que ela conseguiria protegê-lo dos que queriam sua morte?

Enquanto eu contasse as mulheres e crianças parariam tudo e ficariam em silêncio. Eu saberia exatamente o que ia no coração delas – a maioria já tinha passado por isso. Cada uma delas teria que se segurar para não me interromper perguntando “Já nasceu? Será menino ou menina? Será que eu posso cuidar do bebê? Ela podia vir morar aqui com a gente…”

E eu continuaria contando. O bebê nasceu, sim, era um menino lindo… mas ainda podia ser morto a qualquer momento. Maria tinha que escondê-lo o tempo todo, e essa tensão era insuportável. Até que numa noite um anjo falou a José. “Pegue sua esposa e o menino e fuja daqui!” Prontamente José fugiu com eles para uma terra distante, onde poderiam criar o menino em segurança.

“Não, minhas amigas, este bebê nós não precisamos salvar; foi ele quem nos salvou. Esse menino é o Principe da Paz, o Verbo de Deus que virou gente e caminhou entre nós. Podemos, sim, acolhê-lo em nosso coração, convidando-o entrar e fazer morada.”

A essa altura da conversa o fogo estaria se apagando e as crianças adormecendo em nossos braços…

Amigos,
 
Depois de muitos e muitos natais desfrutados com os povos indígenas, este ano será diferente. Como alguns de vocês já sabem, Suzuki e eu temos vivido por vários anos sob vigilância, sofrendo falsas acusações, difamação, intimações, interrogatórios e até ameaças de morte, devido ao nosso trabalho em defesa das crianças indígenas. Sempre contamos com o apoio e as orações de muitos irmãos em Cristo como você, e por isso conseguimos suportar essa pressão por anos e continuar avançando na luta, com muitas vitórias.
 
Entretanto, no início de 2011, ameaças de que a adoção da Hakani estaria prestes a ser invalidada, e de que ela poderia ser afastada de nós a qualquer momento, nos levou a decidir sair do país. Nós tomamos esta decisão com muita seriedade seguindo o conselho de diversos pastores e líderes espirituais, de nossos advogados, de um juiz da infância e da nossa família. Entendemos que neste momento o Brasil não é um lugar seguro para nós, especialmente para a Hakani. Precisamos muito das suas orações e do seu apoio neste momento nossa vida.



A VOZ DA ATINI ECOANDO LÁ FORA

“Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados.Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos.” 2 Coríntios 4:8-9

Estamos iniciando um movimento para levar a VOZ da ATINI para além das fronteiras do Brasil. Deus está abrindo portas e já enviou a primeira parceira – Katrina, uma professora americana que largou tudo para se juntar a nós.

“Em julho de 2011, eu viajei para o Havaí para visitar alguns amigos. A viagem acabou rendendo muito mais do que eu imaginava. Lá eu conheci a família Suzuki, ouvi a história deles e imediatamente me apaixonei pela Hakani. Fiquei profundamente tocada ao saber que ela sobreviveu de maneira tão milagrosa. Quando minhas férias terminaram eu voltei para casa, sem imaginar que eu iria pedir as contas no meu emprego e comprar uma passagem só de ida para o Havaí.  Mas de repente eu tive certeza que alguma coisa em meu coração havia mudado para sempre. Eu senti um urgência desesperada de servir esta família incrível de alguma forma. Então deixei meu emprego e me mudei para Kona – desde setembro eu sou a professora de inglês e de matemática da Hakani no Learning Center da Jocum. A cada dia sinto mais certeza de que aqui é exatamente o lugar onde Deus me quer. E eu me sinto honrada em apoiar a família Suzuki  em seu ministério em prol das crianças indígenas do Brasil.”   Katrina De Martini

Nenhum comentário:

Postar um comentário